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1 de fev de 2009

No dia em que Deus criou as mães












No dia em que Deus criou as mães (e já vinha virando dia e noite há seis dias),
um anjo apareceu-Lhe e disse-Lhe:
— Por que é que o Senhor meu Deus
está tão inquieto com esta criação?
E Deus respondeu:
— Já leste as especificações desta encomenda?
Ela tem que ser totalmente lavável, mas não pode ser de plástico. Deve ter 180 partes móveis e substituíveis, funcionar à base de café e sobras de comida.
Ter um colo macio que sirva de travesseiro para as crianças.
Um beijo que tenha o dom de curar qualquer coisa, desde um ferimento até as dores de uma paixão, e ainda ter seis pares de mãos.
O anjo balançou lentamente a cabeça e disse:
— Seis pares de mãos? Parece impossível!
— Mas o problema não é só esse, e os três pares de olhos que essa criatura tem de ter
O anjo, num sobressalto, perguntou:
— E tem isso no modelo padrão?
O Senhor Deus assentiu:
— Sim. Um par de olhos para ver através das portas fechadas, para quando se perguntar o que as crianças estão a fazer lá dentro (embora ela já saiba); outro par na parte posterior da cabeça, para ver o que não deveria, mas precisa saber, e naturalmente os olhos normais, capazes de consolar uma criança em choro,
dizendo-lhe: — Calma, calma! Eu compreendo-te, eu gosto de ti!, sem dizer uma palavra.
E o anjo comentou mais uma vez:
— Senhor, é hora de dormir. Amanhã é outro dia.
Mas o Senhor Deus replicou:
— Não posso, já está quase pronta. Já tenho um modelo que se cura sozinho quando adoece, que consegue alimentar uma família de seis pessoas com meio quilo de carne moída e consegue convencer uma criança de 9 anos a tomar banho...
O anjo rodeou lentamente o modelo e disse:
— É muito delicada, Senhor!
O Senhor disse entusiasmado:
— Mas é muito resistente! Tu não imaginas o que esta pessoa pode fazer ou suportar!
O anjo, analisando melhor a criação, observou:
— Há um vazamento ali, Senhor...
— Não é um simples vazamento, é uma lágrima! Ela serve para expressar alegrias, tristezas, dores, solidão, orgulho e outros sentimentos.
— Sois um génio, Senhor!, disse o anjo entusiasmado com a criação.
— Mas, disse o Senhor, isso não fui eu que coloquei. Apareceu assim...

Poesias,Contos...Queria viver deles...

"Escrever é procurar entender, é procurar reproduzir o irreproduzível, é sentir até o último fim o sentimento que permaneceria apenas vago e sufocador. Escrever é também abençoar uma vida que não foi abençoada."
Clarice Lispector

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